Há muito tempo ele admitira para si mesmo que era um fracassado. Concluiu isso ainda muito jovem, deixando a certeza adolescente se consolidar. E as raízes, inexperientemente aprofundadas, apenas agora tinham chances de um leve recuo.
Só agora lhe ocorria que se propusera poucas provas para desistir e ainda menos para continuar. Só agora percebia que havia outros atalhos, bastava apenas apurar seus instintos e descobrir quais eram os galhos que poderia cortar. Galhos que antes lhe passaram despercebidos, disfarçados de mata fechada.
Era uma corrida contra o tempo que se mostrava bastante cruel, guiada por um novo medo de chegar ao fim só para confirmar o que partira já sabendo. E aí o caminho percorrido não valeria como experiência, afinal que conforto teria ao constatar que então não era mais apenas um fracassado, mas sim um fracassado desiludido e cansado?
Para ele, a felicidade era uma linda e voluptuosa morena de olhos verdes, dessas que protagonizam as melhores fantasias de qualquer mortal. Era desejada e sabia disso. Assim como ele sabia que jamais a teria. Todos os dias ela o provocava, incentivava-o a tentar. E ele, cego de desejo, sempre tentava.
Havia um certo prazer para ela em manter esse jogo. E quando ela percebia que ele estava prestes a desistir, ela chegava bem perto e o deixava sentir seu perfume. Isso o enchia de energia para tentar mais uma vez.
Mas em alguns momentos ele realmente se cansava daquilo. Aquela promessa que nunca se cumpria o fazia sentir-se tolo, acabando por preferir conquistas mais fáceis.
Então se enganava para tentar engolir realidades que na verdade lhe eram intragáveis. E ao enganar-se, enganava também aos desavisados que vez ou outra caíam na sua cilada velha e manjada. Algumas vezes dera-se ao luxo de rir disso tudo, mas até mesmo quando ria, soava triste. E como cansara de sentir pena da própria infelicidade, mas também agora rir era inviável, tentava encontrar uma nova forma de arrancar as grades que ele mesmo colocara ao seu redor.
Pois pior fracasso não é encarar a própria escuridão, mas apagar a luz daquele que ainda sonha. E se assim foi, não há mais como desfazer...
E já que descobriu que não é capaz de salvar, pensa que já seria menos desastroso se pudesse ao menos fazer de tudo aquilo algo um pouco – bem pouco – menos insuportável. Só para que consiga respirar por mais um tempinho, antes de deixar que seu peso o leve para o fundo com tanta força que em segundos a água o invada e tome conta de vez dos seus pulmões.
domingo, 26 de agosto de 2007
domingo, 19 de agosto de 2007
O primeiro que morre
Aqui do alto da minha arrogância te vejo aí em silêncio, tão baixo que mal posso definir teus traços. Tu te escondes na sombra, tenta desaparecer como uma criança triste que sempre é alvo de deboche na escola.
Eles apontam o dedo cruel e dão gargalhadas sonoras, e tu deixas porque pensa que é assim que tem que ser. Não questiona mais, não chora mais. Apenas baixa a cabeça na humildade que te ensinaram ter, esperando o dia da recompensa.
Aqui de cima vejo tudo e por um tempo tento pegar tua mão. Por um tempo tento te ensinar a olhar de frente, mas demoro a perceber que só conseguiria fazer isso se me agachasse e ficasse à tua altura. Os olhos ficariam frente a frente e aí sim tu teria a chance de compreender melhor as minhas palavras.
Mas não aprendo isso a tempo de salvar o que te resta. E tu estás mais disposto a continuar no mesmo chão, a contar formigas e promover-lhe chuva grossa de lágrimas.
E por não aprender isso a tempo, eu passo a caminhar mais alto. No caminho, não percebo mais onde piso, não vejo que chuto as pedras e destruo as paredes antes tão sólidas. Pois minha cabeça continua erguida e meus olhos, sempre voltados para dentro, não te vêem mais e não reconhecem tua forma. Como um animal que só percebe o movimento da sua presa, eu passo por ti sem notar, e posso até, vez ou outra, ter pisado nas tuas mãos apoiadas no chão, naquelas raras tentativas de se erguer.
A boa ação se transforma e pesa cada dia mais. Agora não vejo mais tanto sentido. Agora que meu peito congelou e minhas pernas se alongaram, não consigo mais te aquecer nem dobrar os joelhos.
Minha mente não está mais aqui e sempre que isso me causa dor, afasto o pensamento. O sol me agrada mais e teu toque desesperado de atenção me aflige, deprime, me faz pensar no lixo que varri para baixo do tapete e que está lá há tanto tempo que já começa a feder.
E talvez porque não haja uma saída honrosa, acabo afogando a melancolia em risos gratuitos, fingindo não ser necessário decidir. Não agora. Mas de agora em agora, caminho pelo corredor sem fim destruindo o pouco que resta da velha construção. Nem percebo que, no caminho, permiti que meus pés esmagassem as formigas e interrompessem sua trilha.
Isso te magoou, eu sei. Mas preferi ouvir música alta a ouvir tuas lamúrias. Não por que elas me chateiem, mas porque não tenho as respostas.
Ou talvez o que eu não tenha é a coragem de responder.
Eles apontam o dedo cruel e dão gargalhadas sonoras, e tu deixas porque pensa que é assim que tem que ser. Não questiona mais, não chora mais. Apenas baixa a cabeça na humildade que te ensinaram ter, esperando o dia da recompensa.
Aqui de cima vejo tudo e por um tempo tento pegar tua mão. Por um tempo tento te ensinar a olhar de frente, mas demoro a perceber que só conseguiria fazer isso se me agachasse e ficasse à tua altura. Os olhos ficariam frente a frente e aí sim tu teria a chance de compreender melhor as minhas palavras.
Mas não aprendo isso a tempo de salvar o que te resta. E tu estás mais disposto a continuar no mesmo chão, a contar formigas e promover-lhe chuva grossa de lágrimas.
E por não aprender isso a tempo, eu passo a caminhar mais alto. No caminho, não percebo mais onde piso, não vejo que chuto as pedras e destruo as paredes antes tão sólidas. Pois minha cabeça continua erguida e meus olhos, sempre voltados para dentro, não te vêem mais e não reconhecem tua forma. Como um animal que só percebe o movimento da sua presa, eu passo por ti sem notar, e posso até, vez ou outra, ter pisado nas tuas mãos apoiadas no chão, naquelas raras tentativas de se erguer.
A boa ação se transforma e pesa cada dia mais. Agora não vejo mais tanto sentido. Agora que meu peito congelou e minhas pernas se alongaram, não consigo mais te aquecer nem dobrar os joelhos.
Minha mente não está mais aqui e sempre que isso me causa dor, afasto o pensamento. O sol me agrada mais e teu toque desesperado de atenção me aflige, deprime, me faz pensar no lixo que varri para baixo do tapete e que está lá há tanto tempo que já começa a feder.
E talvez porque não haja uma saída honrosa, acabo afogando a melancolia em risos gratuitos, fingindo não ser necessário decidir. Não agora. Mas de agora em agora, caminho pelo corredor sem fim destruindo o pouco que resta da velha construção. Nem percebo que, no caminho, permiti que meus pés esmagassem as formigas e interrompessem sua trilha.
Isso te magoou, eu sei. Mas preferi ouvir música alta a ouvir tuas lamúrias. Não por que elas me chateiem, mas porque não tenho as respostas.
Ou talvez o que eu não tenha é a coragem de responder.
terça-feira, 14 de agosto de 2007
Tudo o que não tivemos
Os dedos percorriam a superfície lisa, mas sem curvas, da velha estante da sala. Uma fina camada de pó tornava-se perceptível somente com o toque. Nada fica limpo o tempo todo. Os olhos pararam diante dos velhos porta-retratos e os lábios ensaiaram um sorriso meio torto. As velhas fotos estavam lá há anos. Talvez por descuido, talvez por não haver outras para substituir... Mas realmente acreditava ser por estarem ali há tanto tempo que nem sequer eram mais notadas. Viraram partes de um cenário, tão fixas e eternas quanto as manchas amareladas dos quadros retirados da parede na última mudança.
Isso lhe trazia um pouco de conforto. Mas não o conforto esperado, no real sentido da palavra. Este não acreditava sentir mais naquele lugar. Era o conforto amargo de se sentir como sempre se sentira.
Afinal, o que fez tudo aquilo deixar de ser tão familiar? Sabia a resposta, sempre soube, mas gostava de se fazer a mesma pergunta a cada vez. Talvez uma rala esperança de mudar o resultado. Talvez querendo acreditar que o tempo a faria pensar diferente...
Mas sabia sim. O que deixa de ser familiar é o que nunca foi. Onde nunca se sentira verdadeiramente parte, jamais conseguiria ser. Nem as mais doces memórias, nem as mais agradáveis lembranças teriam a força de mudar o que nunca existiu.
Aquilo nunca fora seu, então nunca será. E nunca tendo sido, como sentiria diferente?
A verdade é que gostava de fantasiar que um dia estaria ali, diante da mobília velha com ar imperial, e sorriria um sorriso puro e sincero, respirando aquele ar com perfume de lavanda... pensando em como era bom estar em casa novamente.
Ouviria aquela voz de sempre, sentiria o calor do sol que refletia no tapete macio todas as tardes. E aquilo seria seu.
Mas estava diante das mesmas fotos de tantos anos, os traços tão mudados mas ainda tão presentes naquelas imagens meio apagadas. E o sorriso virava um aperto ao ver que ainda era o mesmo da menina enfeitada com laços no cabelo. Os pequenos olhos de criança que deveriam ter olhado para a câmera estavam tão perdidos como agora.
Ninguém viu nesses anos todos, mas nem teriam como perceber. Lembrava nitidamente daquele dia. Lembrava do que estava pensando naquele exato momento que um flash tentou mascarar.
Mais sombrio do que esta lembrança era saber que os pensamentos também se haviam congelado. Mais de 20 anos se passaram e os sonhos ainda eram os mesmos. E naquele momento viu que sempre seriam, pois realizá-los era algo que já não fazia mais parte dos seus planos.
Continuou a passar o dedo por entre os desenhos da madeira envernizada. O tempo agora teria que ser seu amigo, logo estaria na sua casa sem retratos.
Isso lhe trazia um pouco de conforto. Mas não o conforto esperado, no real sentido da palavra. Este não acreditava sentir mais naquele lugar. Era o conforto amargo de se sentir como sempre se sentira.
Afinal, o que fez tudo aquilo deixar de ser tão familiar? Sabia a resposta, sempre soube, mas gostava de se fazer a mesma pergunta a cada vez. Talvez uma rala esperança de mudar o resultado. Talvez querendo acreditar que o tempo a faria pensar diferente...
Mas sabia sim. O que deixa de ser familiar é o que nunca foi. Onde nunca se sentira verdadeiramente parte, jamais conseguiria ser. Nem as mais doces memórias, nem as mais agradáveis lembranças teriam a força de mudar o que nunca existiu.
Aquilo nunca fora seu, então nunca será. E nunca tendo sido, como sentiria diferente?
A verdade é que gostava de fantasiar que um dia estaria ali, diante da mobília velha com ar imperial, e sorriria um sorriso puro e sincero, respirando aquele ar com perfume de lavanda... pensando em como era bom estar em casa novamente.
Ouviria aquela voz de sempre, sentiria o calor do sol que refletia no tapete macio todas as tardes. E aquilo seria seu.
Mas estava diante das mesmas fotos de tantos anos, os traços tão mudados mas ainda tão presentes naquelas imagens meio apagadas. E o sorriso virava um aperto ao ver que ainda era o mesmo da menina enfeitada com laços no cabelo. Os pequenos olhos de criança que deveriam ter olhado para a câmera estavam tão perdidos como agora.
Ninguém viu nesses anos todos, mas nem teriam como perceber. Lembrava nitidamente daquele dia. Lembrava do que estava pensando naquele exato momento que um flash tentou mascarar.
Mais sombrio do que esta lembrança era saber que os pensamentos também se haviam congelado. Mais de 20 anos se passaram e os sonhos ainda eram os mesmos. E naquele momento viu que sempre seriam, pois realizá-los era algo que já não fazia mais parte dos seus planos.
Continuou a passar o dedo por entre os desenhos da madeira envernizada. O tempo agora teria que ser seu amigo, logo estaria na sua casa sem retratos.
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
Cacos de risos
E quem é que pode dizer que isso não é perfeito... Quem mais pode dizer o que devia ou não ter sido feito?
Por mais que ela tentasse, não conseguia ler aquela imagem. Não conseguia traduzir os lábios ressecados, dentes escurecidos expostos, forçando um sorriso tão obscuro.
Quando se sorri, se sorri com os olhos, pois o que se deixa sorrir é o corpo inteiro. Mas o que ela via era uma paródia grotesca de momentos que já se foram, partes tão puras de coisas que poderiam ter sido.
Fechou os olhos, respirou fundo. Mais uma tentativa. Mas não, não existia alegria ali. Não que ela não soubesse disso, apenas acreditava que lá no fundo, bem no fundo, se fizesse muita força, conseguiria resgatar o brilho quase apagado. Aquele que foi seu sol por tantos dias. Que envolvia o mundo numa cor suave e perfumada, hoje transformada em nada.
Tudo isso vinha dela, por isso agora se esvaía tão rápido quanto a água no ralo. E deixava-se congelar depois de um banho quente, vendo sua pele ficar tão fina e tão frágil que podia moldar-se como vidro, antes que inevitavelmente resfriasse e se enrijecesse em uma forma absurda e confusa.
E que depois de pronta, quebraria-se novamente, pois não aceitava-se a mesma até o fim. E a cada tentativa, perdia uma parte de si... deixava-a para trás e seguia um pouco menor, um pouco mais fraca, um pouco menos valiosa.
E quem aqui é alguém o suficiente para enxergar através desse sorriso... Quem é capaz de perceber que aquele brilho no olhar não é senão uma lágrima preguiçosa que desistiu de dar seu salto?
Gostava de testar seu rosto diante do espelho. Desafiava-o a mostrar o que jamais existiu. E talvez às vezes ele tenha vencido. Ou quem sabe foram os outros que não mereceram, na condição de júri, o benefício da resposta.
Confiante nisso, ela ensaia sorrisos toda noite, para que eles estejam bem seguros amanhã e garantam a paz daqueles que não souberam compreender seus lábios.
Mas um dia essa paz não lhe interessará mais... E em frente ao espelho ela ficará horas descobrindo um novo movimento, quem sabe esse possa ser lido.
Por mais que ela tentasse, não conseguia ler aquela imagem. Não conseguia traduzir os lábios ressecados, dentes escurecidos expostos, forçando um sorriso tão obscuro.
Quando se sorri, se sorri com os olhos, pois o que se deixa sorrir é o corpo inteiro. Mas o que ela via era uma paródia grotesca de momentos que já se foram, partes tão puras de coisas que poderiam ter sido.
Fechou os olhos, respirou fundo. Mais uma tentativa. Mas não, não existia alegria ali. Não que ela não soubesse disso, apenas acreditava que lá no fundo, bem no fundo, se fizesse muita força, conseguiria resgatar o brilho quase apagado. Aquele que foi seu sol por tantos dias. Que envolvia o mundo numa cor suave e perfumada, hoje transformada em nada.
Tudo isso vinha dela, por isso agora se esvaía tão rápido quanto a água no ralo. E deixava-se congelar depois de um banho quente, vendo sua pele ficar tão fina e tão frágil que podia moldar-se como vidro, antes que inevitavelmente resfriasse e se enrijecesse em uma forma absurda e confusa.
E que depois de pronta, quebraria-se novamente, pois não aceitava-se a mesma até o fim. E a cada tentativa, perdia uma parte de si... deixava-a para trás e seguia um pouco menor, um pouco mais fraca, um pouco menos valiosa.
E quem aqui é alguém o suficiente para enxergar através desse sorriso... Quem é capaz de perceber que aquele brilho no olhar não é senão uma lágrima preguiçosa que desistiu de dar seu salto?
Gostava de testar seu rosto diante do espelho. Desafiava-o a mostrar o que jamais existiu. E talvez às vezes ele tenha vencido. Ou quem sabe foram os outros que não mereceram, na condição de júri, o benefício da resposta.
Confiante nisso, ela ensaia sorrisos toda noite, para que eles estejam bem seguros amanhã e garantam a paz daqueles que não souberam compreender seus lábios.
Mas um dia essa paz não lhe interessará mais... E em frente ao espelho ela ficará horas descobrindo um novo movimento, quem sabe esse possa ser lido.
terça-feira, 24 de julho de 2007
Uma humilde visita
Tenho um amigo chamado Franz que apareceu aqui e pediu se podia publicar um texto. Eu deixei, para lhe dar uma forcinha. Segue aí:
O Brasão da Cidade
No início tudo estava numa ordem razoável na construção da Torre de Babel; talvez a ordem fosse até excessiva, pensava-se demais em sinalizações, intérpretes, alojamentos de trabalhadores e vias de comunicação, como se à frente houvesse séculos de livres possibilidades de trabalho. A opinião reinante na época chegava ao ponto de que não se podia trabalhar com lentidão suficiente, ela não precisava ser muito enfatizada para que se recuasse assustado ante o pensamento de assentar os alicerces. Argumentava-se da seguinte maneira: o essencial do empreendimento todo é a idéia de construir uma torre que alcance o céu. Ao lado dela tudo o mais é secundário. Uma vez apreendida na sua grandeza essa idéia não pode mais desaparecer; enquanto existirem homens, existirá também o forte desejo de construir a torre até o fim. Mas nesse sentido não é preciso se preocupar com o futuro; pelo contrário, o conhecimento da humanidade aumenta, a arquitetura fez e continuará fazendo mais progressos, um trabalho para o qual necessitamos de um ano será dentro de cem anos realizado, talvez em meio e além disso melhor, com mais consistência. Por que então esforçar-se ainda hoje até o limite das energias? Isso só teria sentido se fosse possível construir a torre no espaço de uma geração. Mas não se pode de modo algum esperar por isso. Era preferível pensar que a geração seguinte, com o seu saber aperfeiçoado, achará mau o trabalho da geração precedente e arrasará o que foi construído, para começar de novo. Esses pensamentos tolhiam as energias e, mais do que com a construção da torre, as pessoas se preocupavam com a construção da cidade dos trabalhadores. Cada nacionalidade queria ter o alojamento mais bonito, resultaram daí disputas que evoluíram até lutas sangrentas. Essas lutas não cessaram mais, para os líderes elas foram um novo argumento no sentido de que, por falta da concentração necessária, a torre deveria ser construída muito devagar ou de preferência só depois do armistício geral. As pessoas porém não ocupavam o tempo apenas com batalhas, nos intervalos embelezava-se a cidade, o que entretanto provocava nova inveja e novas lutas. Assim passou o tempo da primeira geração, mas nenhuma das seguintes foi diferente, sem interrupção só se intensificava a destreza e com ela a belicosidade. A isso se acrescentou que já a segunda ou terceira geração reconheceu o sem-sentido da construção da torre do céu, mas já estavam todos muito ligados entre si para abandonarem a cidade. Tudo o que nela surgiu de lendas e canções está repleto de nostalgia pelo dia profetizado em que a cidade será destroçada por um punho gigantesco com cinco golpes em rápida sucessão. Por isso a cidade também tem um punho no seu brasão.
Franz Kafka
Traduções de Modesto Carone (direto do alemão)
quinta-feira, 19 de julho de 2007
Tiro certo
Embalado pelo primeiro tapa no bumbum, o jovem casal chorou sorrindo. E com o mesmo sorriso salgado o pai pôde ouvir os primeiros sons daquele que seria a sua parte no mundo. Sua chance de glória, a vitória que esconderia sua história.
Aquele pequeno ser era a sua grande desculpa. O tapete persa a esconder sua sujeira.
Depois de 22 anos ouvindo essa história, o garoto ainda tentava ligar os pontos. Sabia, mas não aceitava a bola de ferro que tanto lhe pesava os passos. Dia-a-dia tentava apagar com álcool a tinta das linhas há tanto traçadas, mas tudo o que conseguia era fazer um borrão. E dia-a-dia a mancha aumentava tomando formas cada vez mais difíceis de modelar.
Invejava a infelicidade dos poetas, pois dela faziam rima, e por ela alguém sorria... amava. A sua era real. Não tinha graça, não tinha encanto. Ninguém se recostava numa poltrona macia para sonhar com as suas lamúrias.
E se fosse só por falta de talento, ainda assim o seu lamento poderia confortar. Mas aquela dor era ácida, fantasiada de ódio pulsante, lhe fervia as têmporas e escurecia seu mundo cada vez mais.
E não tinha conserto, não tinha palavras para a falta de ser. Pois mesmo sem ver ele sabia que era dele a desgraça. Uma culpa cultivada na infância que cresceu forte e criou raízes. Planta regada nos templos, cortejada pelos mantos, enobrecida pelo ouro de uma conquista sangrenta. Não sabia e nem poderia arrancar do corpo aquela imagem voraz, marcada como tatuagem, que lhe indicava os caminhos de volta para a casa que sempre deveria ser sua.
Mas ele não entendia as coordenadas e insistia em se perder. E perdido estava ainda mais em casa, mesmo que tantas vezes esse teto tenha tentado se romper.
Negava o luxo, apagava o fogo, destruía as porcelanas decoradas com suas iniciais. Pois era no chão duro e frio que conseguia ouvir seu coração bater. Era na embriaguez que sentia o sangue correr.
Não desperdiçaria mais lágrimas pelas pérolas que se espalhavam no chão. Não colecionaria rugas pelas somas intermináveis. Não puxaria o gatilho por aquele que não soube recomeçar.
Choraria agora pelos amores perdidos. Envelheceria sim, mas pela doença da crença.
A última bala falaria por si.
Aquele pequeno ser era a sua grande desculpa. O tapete persa a esconder sua sujeira.
Depois de 22 anos ouvindo essa história, o garoto ainda tentava ligar os pontos. Sabia, mas não aceitava a bola de ferro que tanto lhe pesava os passos. Dia-a-dia tentava apagar com álcool a tinta das linhas há tanto traçadas, mas tudo o que conseguia era fazer um borrão. E dia-a-dia a mancha aumentava tomando formas cada vez mais difíceis de modelar.
Invejava a infelicidade dos poetas, pois dela faziam rima, e por ela alguém sorria... amava. A sua era real. Não tinha graça, não tinha encanto. Ninguém se recostava numa poltrona macia para sonhar com as suas lamúrias.
E se fosse só por falta de talento, ainda assim o seu lamento poderia confortar. Mas aquela dor era ácida, fantasiada de ódio pulsante, lhe fervia as têmporas e escurecia seu mundo cada vez mais.
E não tinha conserto, não tinha palavras para a falta de ser. Pois mesmo sem ver ele sabia que era dele a desgraça. Uma culpa cultivada na infância que cresceu forte e criou raízes. Planta regada nos templos, cortejada pelos mantos, enobrecida pelo ouro de uma conquista sangrenta. Não sabia e nem poderia arrancar do corpo aquela imagem voraz, marcada como tatuagem, que lhe indicava os caminhos de volta para a casa que sempre deveria ser sua.
Mas ele não entendia as coordenadas e insistia em se perder. E perdido estava ainda mais em casa, mesmo que tantas vezes esse teto tenha tentado se romper.
Negava o luxo, apagava o fogo, destruía as porcelanas decoradas com suas iniciais. Pois era no chão duro e frio que conseguia ouvir seu coração bater. Era na embriaguez que sentia o sangue correr.
Não desperdiçaria mais lágrimas pelas pérolas que se espalhavam no chão. Não colecionaria rugas pelas somas intermináveis. Não puxaria o gatilho por aquele que não soube recomeçar.
Choraria agora pelos amores perdidos. Envelheceria sim, mas pela doença da crença.
A última bala falaria por si.
quarta-feira, 11 de julho de 2007
Vinho barato
Eu fico aqui parada sempre nesse lugar, nessa mesma posição. Fico na ilusão de que, se tentar repetir o momento, vou poder mudar a história. Ou pelo menos entender melhor.
Mas vejo sempre a mesma cena, ouço sempre as mesmas palavras, e a compreensão me escapa mais uma vez.
Se eu tivesse fotografado seu rosto naquele instante, talvez tivesse congelado o que seus olhos tentaram me dizer. E talvez as frases tivessem ficado marcadas para que eu te jogasse na cara e te fizesse ver que não tinha mais como esconder.
Porque agora estou aqui. Só eu e essas minhas verdades ralas e inconstantes, turvas afogadas no meu vinho de má qualidade. Em taça de cristal, ele pensa que engana. Mas sua cor e cheiro me fazem rir de tamanha pretensão.
Como ele, também tentei ser mais forte, ser original. Como ele, tentei ser madura e voraz. Tentei ser cara e confiável, sexy e soberana. Mas como ele, tropeço nas minhas falhas e pinto sua boca, entregando minha fraqueza vulgar e insólita. E aí tu me bebe fria, em copo de plástico, para provar que não mereço nada melhor. E do teu lado, já espera a aspirina, santa amiga dessas noites cheias de restos.
Tentei também ser aspirina. Tão fútil tentativa... me desfiz em pó no primeiro sopro. E agora me recolho e me monto, tentando achar uma forma que quebre teu mundo. Sem bases, sem fórmulas, a única que me resta é a verdadeira. Mas esta, como o vinho fingido, foge pelas mãos e mancha a pele, só para avisar que não a posso ter, mas que estará sempre lá.
Esse chão sempre tão firme, racha-se inteiro em pontas afiadas. Ergo os pés, mas ele ataca com pressa. Me causa tonturas, mas não me rendo assim tão fácil.
Tento escrever e a caneta falha. A música está tão alta! Uma batida desajeitada, uma voz desafinada, ela faz as janelas tremerem e dá o recado: não te deixaremos pensar.
Vejo que esse circo dos horrores é um complô, e dou gargalhadas amargas no faz-de-conta de que ainda tenho as rédeas. Mas eles sabem que não tenho nada a não ser uma mente insana que desenha luares perfeitos e sorrisos quentes.
Eles sabem que não tenho nada. Nem a mim... Nem a ti.
Mas vejo sempre a mesma cena, ouço sempre as mesmas palavras, e a compreensão me escapa mais uma vez.
Se eu tivesse fotografado seu rosto naquele instante, talvez tivesse congelado o que seus olhos tentaram me dizer. E talvez as frases tivessem ficado marcadas para que eu te jogasse na cara e te fizesse ver que não tinha mais como esconder.
Porque agora estou aqui. Só eu e essas minhas verdades ralas e inconstantes, turvas afogadas no meu vinho de má qualidade. Em taça de cristal, ele pensa que engana. Mas sua cor e cheiro me fazem rir de tamanha pretensão.
Como ele, também tentei ser mais forte, ser original. Como ele, tentei ser madura e voraz. Tentei ser cara e confiável, sexy e soberana. Mas como ele, tropeço nas minhas falhas e pinto sua boca, entregando minha fraqueza vulgar e insólita. E aí tu me bebe fria, em copo de plástico, para provar que não mereço nada melhor. E do teu lado, já espera a aspirina, santa amiga dessas noites cheias de restos.
Tentei também ser aspirina. Tão fútil tentativa... me desfiz em pó no primeiro sopro. E agora me recolho e me monto, tentando achar uma forma que quebre teu mundo. Sem bases, sem fórmulas, a única que me resta é a verdadeira. Mas esta, como o vinho fingido, foge pelas mãos e mancha a pele, só para avisar que não a posso ter, mas que estará sempre lá.
Esse chão sempre tão firme, racha-se inteiro em pontas afiadas. Ergo os pés, mas ele ataca com pressa. Me causa tonturas, mas não me rendo assim tão fácil.
Tento escrever e a caneta falha. A música está tão alta! Uma batida desajeitada, uma voz desafinada, ela faz as janelas tremerem e dá o recado: não te deixaremos pensar.
Vejo que esse circo dos horrores é um complô, e dou gargalhadas amargas no faz-de-conta de que ainda tenho as rédeas. Mas eles sabem que não tenho nada a não ser uma mente insana que desenha luares perfeitos e sorrisos quentes.
Eles sabem que não tenho nada. Nem a mim... Nem a ti.
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