O tempo passava e ele já não tolerava mais ver sua imagem refletida na janela à sua frente. Não importava para onde olhasse, sempre acabava fitando aquele rosto sem vida, pele ressecada do frio, olheiras permanentes, o cabelo parecia imundo, apesar de ter lavado naquela mesma manhã. Não suportava mais ver aquela combinação de camisa xadrez e calça jeans desbotada.
Ao analisar aquela figura magra, sentada sem postura nenhuma, ocorria-lhe a figura de um adolescente. Sim, era isso que o incomodava tanto. Parecia exatamente com um garoto de dezesseis anos, revoltado, na espera da sala do diretor, chamado mais uma vez por um ato de indisciplina na escola.
Perdido naqueles pensamentos sem qualquer finalidade, ele nem mais percebia o corre-corre dos médicos e enfermeiras à sua frente. Algumas horas atrás, estava mais para um repórter de fofocas, correndo desesperado atrás de cada indivíduo de avental branco que surgisse no corredor. Mas agora estava inerte. Seu corpo já não se mexia há algum tempo e ele chegou a pensar que poderia ter solidificado seus pés no chão.
Mais algumas pessoas passaram por ele, enquanto sua mente retrocedia lembrando das músicas que tanto ouvira na sua juventude. As letras eram sempre um reflexo do que ele sentia na época. Por isso, cada música marca uma fase de sua vida. Como um hino. Um hino em memória a um período confuso, crítico e totalmente improdutivo da vida de um garoto de classe média que não queria absolutamente nada com coisa nenhuma.
E foi essa cena que Dr. S. viu quando entrou na ala da maternidade da Santa Casa. Um homem em torno dos cinqüenta, cabelos grisalhos nas têmporas, algumas linhas marcadas no rosto pelas preocupações da profissão. No entanto, a imagem geral era muito jovial. Corpo em forma, olhos de um cinza-claro que lembravam muito bem os dias nublados de inverno. Impecável no seu jaleco, ele foi se aproximando do homem que estava sentado desajeitadamente no banco do corredor, recusando a hospitalidade da casa que oferecia uma ampla sala de espera logo adiante.
- Com a sua licença Sr. J., sou o médico responsável pela internação da sua esposa.
Aguardou uns instantes para que o jovem à sua frente voltasse à Terra.
- Aham... – respondeu J. ainda distraído.
Como nuvem disperso e transformo... em formas que longe vão...
- O médico limpou a garganta e se movimentou desconfortável, tentando reaver a postura.
Devo informar-lhe que ela está passando bem no momento. Dentro de algumas horas o senhor poderá até mesmo fazer-lhe uma visita.
Tão longe posso chegar... não há potes de ouro no fim...
- Assim, acho que seria bom o senhor aproveitar o momento para comer alguma coisa, reanimar o corpo. O nervosismo provoca muito cansaço físico. – prosseguiu o médico.
- Tudo bem... – foi o que conseguiu pronunciar... Agora não fazia mais diferença.
Fica na memória... não morre... se faz fumaça e paira no ar...
quarta-feira, 21 de novembro de 2007
terça-feira, 23 de outubro de 2007
O vento leva
Bom te ver abrindo os olhos, percebendo as cores... Tracei um caminho e te vejo agora percorrendo-o aos poucos, um tanto temerosa, um tanto curiosa. Não pisa mais nas minhas pegadas, já faz as próprias marcas, querendo mostrar que esse caminho pode ser o teu também.
É bom te ver perder a penugem, questionar os sonhos... Sei que é doloroso, não há outra fórmula. Se houvesse, certamente já teria te mostrado.
Simplesmente tu abre a porta e olha para trás. Não sei se espera que eu peça para ficar, mas apenas fico lá te observando. Não vou correr e segurar tuas pernas. Pelo contrário, posso até chegar ao parapeito e te dar um empurrão. Assim voarás mais alto... mesmo que eu saiba que é difícil querer ficar no chão depois que se aprende a voar.
Pois agora fica aquele vazio estranho debaixo das minhas asas, não posso mais te segurar.
Quero, e quero sempre que voe, que sinta o vento contra o rosto e perceba que pode vencê-lo fácil. Ignore meu olhar perdido, meu sorriso morto. Ignore se eu te parecer tão longe quando olhar lá do alto e minha imagem diminuir até sumir. Faço isso para que vire para frente e veja o mundo que te espera. E espero e quero que esse mundo seja lindo e imenso, tanto que mal encontre tempo para conhecê-lo totalmente. E que o medo de cair passe logo, pois quando aprender a dominar teu vôo, o percurso ficará tranquilo e só aí compreenderás... só então saberás quando parar. Pois sempre poderá recomeçar tão logo ouça os ventos te chamarem.
O travesseiro perdeu teu cheiro, ou será que teu cheiro não é mais o mesmo?
É bom te ver perder a penugem, questionar os sonhos... Sei que é doloroso, não há outra fórmula. Se houvesse, certamente já teria te mostrado.
Simplesmente tu abre a porta e olha para trás. Não sei se espera que eu peça para ficar, mas apenas fico lá te observando. Não vou correr e segurar tuas pernas. Pelo contrário, posso até chegar ao parapeito e te dar um empurrão. Assim voarás mais alto... mesmo que eu saiba que é difícil querer ficar no chão depois que se aprende a voar.
Pois agora fica aquele vazio estranho debaixo das minhas asas, não posso mais te segurar.
Quero, e quero sempre que voe, que sinta o vento contra o rosto e perceba que pode vencê-lo fácil. Ignore meu olhar perdido, meu sorriso morto. Ignore se eu te parecer tão longe quando olhar lá do alto e minha imagem diminuir até sumir. Faço isso para que vire para frente e veja o mundo que te espera. E espero e quero que esse mundo seja lindo e imenso, tanto que mal encontre tempo para conhecê-lo totalmente. E que o medo de cair passe logo, pois quando aprender a dominar teu vôo, o percurso ficará tranquilo e só aí compreenderás... só então saberás quando parar. Pois sempre poderá recomeçar tão logo ouça os ventos te chamarem.
O travesseiro perdeu teu cheiro, ou será que teu cheiro não é mais o mesmo?
domingo, 30 de setembro de 2007
Leve o tempo
Abra os olhos e não me procure.
Seja para quem for, seja para ninguém. Não estarei aqui quando acordar...
Não sei onde posso estar, mas é longe, longe demais de tudo, longe demais de mim.
Onde estou há uma brisa fresca. Não está chovendo, mas sinto gotas de água limpa caindo no meu rosto.
Sob os pés, chão suave e macio, posso estar flutuando...
Aqui o ar é puro e posso respirar profundo sem o peso grotesco e pegajoso que me cola à pele.
Aqui estou limpa e meu corpo sente a luz.
Abra os olhos e sinta o dia chegar. Apenas por saber que ele logo se vai, mas que mesmo assim deseja ver teus olhos mais essa vez.
Toque os lençóis e sinta como é leve... E leve solta, leve folha que tomada pelo vento como a brincar jamais toca o chão.
Leve o tempo que for, deixe-se levar...
No fim do dia, posso estar de volta depois que seus olhos fecharem.
Mas pela manhã, ao acordar, não espere me ver lá.
Seja para quem for, seja para ninguém. Não estarei aqui quando acordar...
Não sei onde posso estar, mas é longe, longe demais de tudo, longe demais de mim.
Onde estou há uma brisa fresca. Não está chovendo, mas sinto gotas de água limpa caindo no meu rosto.
Sob os pés, chão suave e macio, posso estar flutuando...
Aqui o ar é puro e posso respirar profundo sem o peso grotesco e pegajoso que me cola à pele.
Aqui estou limpa e meu corpo sente a luz.
Abra os olhos e sinta o dia chegar. Apenas por saber que ele logo se vai, mas que mesmo assim deseja ver teus olhos mais essa vez.
Toque os lençóis e sinta como é leve... E leve solta, leve folha que tomada pelo vento como a brincar jamais toca o chão.
Leve o tempo que for, deixe-se levar...
No fim do dia, posso estar de volta depois que seus olhos fecharem.
Mas pela manhã, ao acordar, não espere me ver lá.
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
Instante eterno
As lágrimas estão lá o tempo todo, apenas aguardando um motivo para cair...
Talvez porque a dor seja sempre mais forte do que os momentos de felicidade tão breves. Estes de vez em quando até enganam. Aparecem de repente afastando qualquer nuvem e tão rápido como surgem, lá se vão em poucos instantes, deixando apenas um leve gosto na boca.
Ilusória comparsa... só se percebe a luz quando há escuridão.
Ainda que não se deseje alcançá-la, mesmo assim não se tenta evitá-la. E a todo momento ela se percebe naquele lugar: à sua frente, um imenso vazio; às suas costas, chão a perder de vista. "Junto ao precipício só vai quem vai além". É sua mente cantarolando em tom ameaçador e convidativo.
E de fato ela sempre vai além. E agora é isso que resta, uma tentativa vã de afogar o soluço e a sensação de que não se sabe o por quê. O que se sabe apenas é que, por mais que se vá, sempre haverão outros precipícios...
Afinal, tudo é tão claro e se passar um dia ou dois, nem sequer se lembrará o quão profunda é a cova. Mas no momento é só a dor tentando provar que sempre está lá, não importa para onde se vai, para onde se olha. Cruel amiga inseparável que se faz lembrar a todo instante através das pedras que ela insiste em chutar, mesmo sabendo que os pés podem sangrar.
Pois chega uma hora em que não há mais o que largar, então se abandona a si mesmo. E mesmo assim, lá estará ela... Imortal inabalável, sedutora melancolia que tantas vezes fez-se de falsa desculpa, agora tão concreta realidade.
Então ela dormirá o tempo que for preciso, e quando acordar, espera não descobrir que cavou tão fundo a ponto de não saber mais como sair.
Talvez porque a dor seja sempre mais forte do que os momentos de felicidade tão breves. Estes de vez em quando até enganam. Aparecem de repente afastando qualquer nuvem e tão rápido como surgem, lá se vão em poucos instantes, deixando apenas um leve gosto na boca.
Ilusória comparsa... só se percebe a luz quando há escuridão.
Ainda que não se deseje alcançá-la, mesmo assim não se tenta evitá-la. E a todo momento ela se percebe naquele lugar: à sua frente, um imenso vazio; às suas costas, chão a perder de vista. "Junto ao precipício só vai quem vai além". É sua mente cantarolando em tom ameaçador e convidativo.
E de fato ela sempre vai além. E agora é isso que resta, uma tentativa vã de afogar o soluço e a sensação de que não se sabe o por quê. O que se sabe apenas é que, por mais que se vá, sempre haverão outros precipícios...
Afinal, tudo é tão claro e se passar um dia ou dois, nem sequer se lembrará o quão profunda é a cova. Mas no momento é só a dor tentando provar que sempre está lá, não importa para onde se vai, para onde se olha. Cruel amiga inseparável que se faz lembrar a todo instante através das pedras que ela insiste em chutar, mesmo sabendo que os pés podem sangrar.
Pois chega uma hora em que não há mais o que largar, então se abandona a si mesmo. E mesmo assim, lá estará ela... Imortal inabalável, sedutora melancolia que tantas vezes fez-se de falsa desculpa, agora tão concreta realidade.
Então ela dormirá o tempo que for preciso, e quando acordar, espera não descobrir que cavou tão fundo a ponto de não saber mais como sair.
terça-feira, 4 de setembro de 2007
De onde vem a força
Venha aqui e mostre tua força, sei que é disso que gosta. Teu olho de caçador detecta meu medo e se diverte. Para ti sou bola de lã, sou inseto indefeso, geléia não tóxica.
Venha e aproveite, vês como sou vulnerável?
Venha, pergunte o que quiser, sempre direi o que espera. Não te chocarei, não te surpreenderei. Pois na mesma proporção em que cresce meu ódio, cresce minha dependência.
Estou presa a ti, na verdade sempre estive. Já nasci com a tua mão agarrada ao meu braço, controlando meu pulso, sugando meu sangue.
Pois eu digo que agora podes vir e fazer o que sempre fez, não vou apresentar resistência, tenho preguiça de lutar.
Venha, chegue perto, aponte teu dedo no meu rosto quando este te parecer erguido demais. Sei que o que tu quer é que eu baixe meus olhos, veja a sujeira dos teus sapatos e me apresse em limpá-los.
Venha e dite tuas ordens absurdas. Mande-me fazer e desfazer por capricho. Eu sei disso, mas farei mesmo assim.
Pois é tu quem decide o que eu como, onde eu durmo e com quem. És tu quem governa e controla meus ímpetos, e grita mais alto quando tento ir além do sussurro.
Venha, fale o que quiser, tu estarás sempre certo. O não travará na garganta, pois verei a chama nos teus olhos lá no alto e não ousarei soltá-lo.
Venha e se aposse da minha sobrevida, eu a tenho somente para ti.
Há tempos não uso relógio, pois sei que a hora certa é a tua. Há tempos não preciso pensar, minhas idéias não valeriam de nada diante de uma ordem tua.
Pois então venha e ordene meus movimentos, eu os podarei e somente guiarei minhas pernas para onde disseres que devo ir. E não desejarei mais o próximo céu, não tentarei pular os muros, pois provei a tua ira e aprendi a lição.
Não sonharei mais quando dormir, tu me ensinaste a acordar antes. E hoje minha mente é tua, me digas o que pensar, e assim o farei quando mandar.
Mas quando te cansar de mim, quando não lhe for mais útil... lembra-te de me jogar num lugar limpo, onde eu possa reconhecer meus pedaços e tentar juntá-los.
Venha e aproveite, vês como sou vulnerável?
Venha, pergunte o que quiser, sempre direi o que espera. Não te chocarei, não te surpreenderei. Pois na mesma proporção em que cresce meu ódio, cresce minha dependência.
Estou presa a ti, na verdade sempre estive. Já nasci com a tua mão agarrada ao meu braço, controlando meu pulso, sugando meu sangue.
Pois eu digo que agora podes vir e fazer o que sempre fez, não vou apresentar resistência, tenho preguiça de lutar.
Venha, chegue perto, aponte teu dedo no meu rosto quando este te parecer erguido demais. Sei que o que tu quer é que eu baixe meus olhos, veja a sujeira dos teus sapatos e me apresse em limpá-los.
Venha e dite tuas ordens absurdas. Mande-me fazer e desfazer por capricho. Eu sei disso, mas farei mesmo assim.
Pois é tu quem decide o que eu como, onde eu durmo e com quem. És tu quem governa e controla meus ímpetos, e grita mais alto quando tento ir além do sussurro.
Venha, fale o que quiser, tu estarás sempre certo. O não travará na garganta, pois verei a chama nos teus olhos lá no alto e não ousarei soltá-lo.
Venha e se aposse da minha sobrevida, eu a tenho somente para ti.
Há tempos não uso relógio, pois sei que a hora certa é a tua. Há tempos não preciso pensar, minhas idéias não valeriam de nada diante de uma ordem tua.
Pois então venha e ordene meus movimentos, eu os podarei e somente guiarei minhas pernas para onde disseres que devo ir. E não desejarei mais o próximo céu, não tentarei pular os muros, pois provei a tua ira e aprendi a lição.
Não sonharei mais quando dormir, tu me ensinaste a acordar antes. E hoje minha mente é tua, me digas o que pensar, e assim o farei quando mandar.
Mas quando te cansar de mim, quando não lhe for mais útil... lembra-te de me jogar num lugar limpo, onde eu possa reconhecer meus pedaços e tentar juntá-los.
domingo, 26 de agosto de 2007
O que não se salva
Há muito tempo ele admitira para si mesmo que era um fracassado. Concluiu isso ainda muito jovem, deixando a certeza adolescente se consolidar. E as raízes, inexperientemente aprofundadas, apenas agora tinham chances de um leve recuo.
Só agora lhe ocorria que se propusera poucas provas para desistir e ainda menos para continuar. Só agora percebia que havia outros atalhos, bastava apenas apurar seus instintos e descobrir quais eram os galhos que poderia cortar. Galhos que antes lhe passaram despercebidos, disfarçados de mata fechada.
Era uma corrida contra o tempo que se mostrava bastante cruel, guiada por um novo medo de chegar ao fim só para confirmar o que partira já sabendo. E aí o caminho percorrido não valeria como experiência, afinal que conforto teria ao constatar que então não era mais apenas um fracassado, mas sim um fracassado desiludido e cansado?
Para ele, a felicidade era uma linda e voluptuosa morena de olhos verdes, dessas que protagonizam as melhores fantasias de qualquer mortal. Era desejada e sabia disso. Assim como ele sabia que jamais a teria. Todos os dias ela o provocava, incentivava-o a tentar. E ele, cego de desejo, sempre tentava.
Havia um certo prazer para ela em manter esse jogo. E quando ela percebia que ele estava prestes a desistir, ela chegava bem perto e o deixava sentir seu perfume. Isso o enchia de energia para tentar mais uma vez.
Mas em alguns momentos ele realmente se cansava daquilo. Aquela promessa que nunca se cumpria o fazia sentir-se tolo, acabando por preferir conquistas mais fáceis.
Então se enganava para tentar engolir realidades que na verdade lhe eram intragáveis. E ao enganar-se, enganava também aos desavisados que vez ou outra caíam na sua cilada velha e manjada. Algumas vezes dera-se ao luxo de rir disso tudo, mas até mesmo quando ria, soava triste. E como cansara de sentir pena da própria infelicidade, mas também agora rir era inviável, tentava encontrar uma nova forma de arrancar as grades que ele mesmo colocara ao seu redor.
Pois pior fracasso não é encarar a própria escuridão, mas apagar a luz daquele que ainda sonha. E se assim foi, não há mais como desfazer...
E já que descobriu que não é capaz de salvar, pensa que já seria menos desastroso se pudesse ao menos fazer de tudo aquilo algo um pouco – bem pouco – menos insuportável. Só para que consiga respirar por mais um tempinho, antes de deixar que seu peso o leve para o fundo com tanta força que em segundos a água o invada e tome conta de vez dos seus pulmões.
Só agora lhe ocorria que se propusera poucas provas para desistir e ainda menos para continuar. Só agora percebia que havia outros atalhos, bastava apenas apurar seus instintos e descobrir quais eram os galhos que poderia cortar. Galhos que antes lhe passaram despercebidos, disfarçados de mata fechada.
Era uma corrida contra o tempo que se mostrava bastante cruel, guiada por um novo medo de chegar ao fim só para confirmar o que partira já sabendo. E aí o caminho percorrido não valeria como experiência, afinal que conforto teria ao constatar que então não era mais apenas um fracassado, mas sim um fracassado desiludido e cansado?
Para ele, a felicidade era uma linda e voluptuosa morena de olhos verdes, dessas que protagonizam as melhores fantasias de qualquer mortal. Era desejada e sabia disso. Assim como ele sabia que jamais a teria. Todos os dias ela o provocava, incentivava-o a tentar. E ele, cego de desejo, sempre tentava.
Havia um certo prazer para ela em manter esse jogo. E quando ela percebia que ele estava prestes a desistir, ela chegava bem perto e o deixava sentir seu perfume. Isso o enchia de energia para tentar mais uma vez.
Mas em alguns momentos ele realmente se cansava daquilo. Aquela promessa que nunca se cumpria o fazia sentir-se tolo, acabando por preferir conquistas mais fáceis.
Então se enganava para tentar engolir realidades que na verdade lhe eram intragáveis. E ao enganar-se, enganava também aos desavisados que vez ou outra caíam na sua cilada velha e manjada. Algumas vezes dera-se ao luxo de rir disso tudo, mas até mesmo quando ria, soava triste. E como cansara de sentir pena da própria infelicidade, mas também agora rir era inviável, tentava encontrar uma nova forma de arrancar as grades que ele mesmo colocara ao seu redor.
Pois pior fracasso não é encarar a própria escuridão, mas apagar a luz daquele que ainda sonha. E se assim foi, não há mais como desfazer...
E já que descobriu que não é capaz de salvar, pensa que já seria menos desastroso se pudesse ao menos fazer de tudo aquilo algo um pouco – bem pouco – menos insuportável. Só para que consiga respirar por mais um tempinho, antes de deixar que seu peso o leve para o fundo com tanta força que em segundos a água o invada e tome conta de vez dos seus pulmões.
domingo, 19 de agosto de 2007
O primeiro que morre
Aqui do alto da minha arrogância te vejo aí em silêncio, tão baixo que mal posso definir teus traços. Tu te escondes na sombra, tenta desaparecer como uma criança triste que sempre é alvo de deboche na escola.
Eles apontam o dedo cruel e dão gargalhadas sonoras, e tu deixas porque pensa que é assim que tem que ser. Não questiona mais, não chora mais. Apenas baixa a cabeça na humildade que te ensinaram ter, esperando o dia da recompensa.
Aqui de cima vejo tudo e por um tempo tento pegar tua mão. Por um tempo tento te ensinar a olhar de frente, mas demoro a perceber que só conseguiria fazer isso se me agachasse e ficasse à tua altura. Os olhos ficariam frente a frente e aí sim tu teria a chance de compreender melhor as minhas palavras.
Mas não aprendo isso a tempo de salvar o que te resta. E tu estás mais disposto a continuar no mesmo chão, a contar formigas e promover-lhe chuva grossa de lágrimas.
E por não aprender isso a tempo, eu passo a caminhar mais alto. No caminho, não percebo mais onde piso, não vejo que chuto as pedras e destruo as paredes antes tão sólidas. Pois minha cabeça continua erguida e meus olhos, sempre voltados para dentro, não te vêem mais e não reconhecem tua forma. Como um animal que só percebe o movimento da sua presa, eu passo por ti sem notar, e posso até, vez ou outra, ter pisado nas tuas mãos apoiadas no chão, naquelas raras tentativas de se erguer.
A boa ação se transforma e pesa cada dia mais. Agora não vejo mais tanto sentido. Agora que meu peito congelou e minhas pernas se alongaram, não consigo mais te aquecer nem dobrar os joelhos.
Minha mente não está mais aqui e sempre que isso me causa dor, afasto o pensamento. O sol me agrada mais e teu toque desesperado de atenção me aflige, deprime, me faz pensar no lixo que varri para baixo do tapete e que está lá há tanto tempo que já começa a feder.
E talvez porque não haja uma saída honrosa, acabo afogando a melancolia em risos gratuitos, fingindo não ser necessário decidir. Não agora. Mas de agora em agora, caminho pelo corredor sem fim destruindo o pouco que resta da velha construção. Nem percebo que, no caminho, permiti que meus pés esmagassem as formigas e interrompessem sua trilha.
Isso te magoou, eu sei. Mas preferi ouvir música alta a ouvir tuas lamúrias. Não por que elas me chateiem, mas porque não tenho as respostas.
Ou talvez o que eu não tenha é a coragem de responder.
Eles apontam o dedo cruel e dão gargalhadas sonoras, e tu deixas porque pensa que é assim que tem que ser. Não questiona mais, não chora mais. Apenas baixa a cabeça na humildade que te ensinaram ter, esperando o dia da recompensa.
Aqui de cima vejo tudo e por um tempo tento pegar tua mão. Por um tempo tento te ensinar a olhar de frente, mas demoro a perceber que só conseguiria fazer isso se me agachasse e ficasse à tua altura. Os olhos ficariam frente a frente e aí sim tu teria a chance de compreender melhor as minhas palavras.
Mas não aprendo isso a tempo de salvar o que te resta. E tu estás mais disposto a continuar no mesmo chão, a contar formigas e promover-lhe chuva grossa de lágrimas.
E por não aprender isso a tempo, eu passo a caminhar mais alto. No caminho, não percebo mais onde piso, não vejo que chuto as pedras e destruo as paredes antes tão sólidas. Pois minha cabeça continua erguida e meus olhos, sempre voltados para dentro, não te vêem mais e não reconhecem tua forma. Como um animal que só percebe o movimento da sua presa, eu passo por ti sem notar, e posso até, vez ou outra, ter pisado nas tuas mãos apoiadas no chão, naquelas raras tentativas de se erguer.
A boa ação se transforma e pesa cada dia mais. Agora não vejo mais tanto sentido. Agora que meu peito congelou e minhas pernas se alongaram, não consigo mais te aquecer nem dobrar os joelhos.
Minha mente não está mais aqui e sempre que isso me causa dor, afasto o pensamento. O sol me agrada mais e teu toque desesperado de atenção me aflige, deprime, me faz pensar no lixo que varri para baixo do tapete e que está lá há tanto tempo que já começa a feder.
E talvez porque não haja uma saída honrosa, acabo afogando a melancolia em risos gratuitos, fingindo não ser necessário decidir. Não agora. Mas de agora em agora, caminho pelo corredor sem fim destruindo o pouco que resta da velha construção. Nem percebo que, no caminho, permiti que meus pés esmagassem as formigas e interrompessem sua trilha.
Isso te magoou, eu sei. Mas preferi ouvir música alta a ouvir tuas lamúrias. Não por que elas me chateiem, mas porque não tenho as respostas.
Ou talvez o que eu não tenha é a coragem de responder.
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